terça-feira, 5 de novembro de 2013

Silêncios




Se há coisa que uma pessoa, supostamente sensata, aprende a fazer ao longo da vida, é a fazer uso de silêncios. O silêncio é um dos veículos mais expressivos e inteligentes dos quais dispomos para nos expressarmos. Existem silêncios mudos, outros mais tagarelas e por vezes, existem os intimistas, os de comunhão com o outro, que nos bastam e preenchem o espaço que podia servir de abrigo a palavras e gestos.
Gosto de falar, claro que sim, gosto de comunicar, da conversa com pessoas que a saibam manter viva, que consigam ir passando a bola de um lado para o outro, sem que caia no campo. Gosto da palavra dita. Adoro vozes, deleito-me a ouvir uma boa voz falar, dizer poesia, representar. Gosto de ler em voz alta, por vezes. Contudo, também gosto de silêncios. E isso, é algo que acaba por ser difícil de aceitar e compreender pelas outras pessoas. Muitas delas, confundem-nos permanentemente com tristeza, indiferença, e ainda que um dia ou outro possam coincidir com esses estados de alma, normalmente, são muito mais que isso.
Eu necessito do silêncio. O silêncio é o meu grande companheiro de arrumação e resolução, seja de ideias, de objectivos, recordações, mágoas, desejos, etc. Sempre fui introspectivo, desde pequeno. Sempre pensei muito em silêncio, gosto de andar de carro por isso, gosto de viajar e pensar, enquanto sou conduzido e a paisagem passa tão velozmente ao meu lado como as ideias na minha cabeça. E posso ficar assim horas, sem que me aborreça.
Mas também o belo, o extraordinário, a arte me conduzem ocasionalmente ao silêncio. Quantas e quantas vezes um filme, uma aula de literatura, um poema, um gesto despreocupado e genuíno de uma criança, a bondade humana ou o amor entre duas pessoas, me bastam e dispensam palavras. Não vale a pena acrescentar nada, fica só o essencial, dispensa-se o acessório.
Não gosto de me repetir, quando me pedem a opinião sobre algo, tento ser o mais radical possível, indo ao fundo da questão, sendo coerente com aquilo que penso e defendo. Não costumo usar eufemismos, poupar-me a mim e aos outros de verdades, sendo por isso sincero, ainda que tente não ser deselegante. Principalmente, se for com pessoas que gosto, que me são íntimas. Porém, quando uma e outra vez, depois de já nos termos explicado tão bem, encontramos do outro lado uma resistência tão irracional como patética, onde se sacrifica a coerência, a honestidade e a coragem, que não existe sem medo, há que referir, resta-me o silêncio.
Quando do outro lado encontro alguém que busca inesperadamente meios para chegar a um fim, subterfúgios que justifiquem a fuga constante a uma solução que ainda que possa ser dura, é claramente o caminho, então, calo-me perante tal espectáculo. E calo-me, essencialmente, por respeitar a pessoa, por gostar dela e por já ter dito o que penso, reservo-me a não mais dizer seja o que for sobre tal atitude. Quem procura, sistematicamente, apoio, palavras e soluções e recusa mexer-se seja para que lado for, com medo de se magoar, acaba por perder o crédito. A dor existe. Não vale a pena assobiar para o lado, ignorando-a. Há que perceber o que se pode fazer para curá-la ou aliviá-la, mas fugir na maior parte das vezes, só faz com que o encontro com ela seja mais penoso e demorado. Assim e ainda que discorde muitas das vezes de escolhas destas, respeito as escolhas de cada um, oferecendo o meu silêncio, que evita conflitos e conversas desnecessárias.
E mais uma vez, é o silêncio o meu grande companheiro, que tanto intriga algumas pessoas e me faz dizer – Não reconhecer silêncios em mim, é não me conhecer. E eu, preciso do silêncio para viajar e me (re)encontrar!

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