domingo, 29 de junho de 2014

Amigos dos Copos




A previsibilidade é um aborrecimento atroz. Não haver a mínima hipótese de surpresa, de reinvenção, é  como começar a ler um livro a saber-se o final. Perde-se a vontade de ler. E perde-se a vontade de conviver, de conversar, de estar aberto a. Há várias previsibilidades que hoje me fazem enterrar a vontade. A previsibilidade dos amigos dos copos, por exemplo. Não sendo eu um rapazinho de copos, não posso aceder a que se lembrem de mim apenas quando lhes é conveniente. Eu não quero amigos de copos, amigos que estão sempre ocupados para tudo o resto, que nunca agem, mas reagem, que nunca se lembram mas são relembrados. Amigos dos copos é uma metáfora, não sou permanentemente sisudo e avesso à diversão, simplesmente caminho até meio da ponte e há pessoas que nunca o fazem. Minto, caminhar a meio da ponte é o meu desejo, o problema é que por bondade, por vezes, faço toda a travessia até à outra margem. Mas não o faço para sempre. Há quem o faça, enganando-se, tentando mascarar a realidade, dependendo do outro. Eu, no entanto, sou mais radical, mais duro, vou mesmo ao osso e quando vejo que é para cortar, sou de uma firmeza incisiva. Talvez seja amor próprio, dignidade, respeito. Contudo, vejo a vida como árvore de folha caduca, que se renova em estação diária, até ao fim. E nesse fim, que muitas vezes pode estar mais próximo do que pensamos, pode estar a explicação desta minha obstinação e exigência em relação à verdade. À verdade das coisas, das relações, dos sentimentos, dos gestos. Não tenho aptidão para suportar uma paz podre, por isso quando as folhas da minha árvore caem, levam aquilo que jamais pode continuar em mim.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Falsa Tolerância


Confesso que me irrita a falsa tolerância. Aquela com que muitas vezes nos brindam quando gostam de nós. "Aceito-te" porque gosto demasiado de ti para te dispensar. Fechemos os  olhos a essa diferença! Pelo menos até passar um desconhecido também diferente, tão diferente quanto eu, mas muito mais insuportável de tolerar. Aí surge a ignorância enraizada, a miopia trituradora que nada deixa ver além daquilo que se quer e já se viu.
Cai um olhar de repulsa, um distanciamento mínimo de segurança e tu, ali ao lado, vês que és igual ao adversário, só que com clemência. E o que cria esse apaziguamento? A tolerância? Não, talvez a amizade, o amor, que vão matizando as cores demasiado vivas do que não se aceita.
    

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Exílio


Vivo num exílio, não tenho Pátria. Somente a recordação dela na algibeira, para quando o coração mirra entristecido.
Faltam-me as palavras e a vontade delas. A irrelevância e a estupidez prosperam até nos meandros mais recônditos. Tudo redundou num profundo e exagerado NADA. Tontinhas quarentonas publicam fotos e estados de alma nas redes sociais, o povinho esbate-se em questiúnculas de merda e criam-se ajuntamentos para fazer a quadratura do círculo da insignificância.
O "penso, logo existo" degenerou em "esperneio, logo existo" e há uma luta intestina, em bicos de pés para se aparecer. Então, no meio de tais vultos reduzidos, onde tudo é tão (des)interessante, restou-me uma passagem de ir sem voltar...

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Lá Fora



Acordar todos os dias é um desafio, principalmente, em dias de mundo inóspito como os de hoje. Dormir é como voltar à barriga da mãe diariamente, para a redoma que nos protege da selva e nos permite ser leves, voar, ter aconchego. É duro acordar e  sentir este miasma acinzentado em que tudo se tornou, pesam as palavras estúpidas e sem sentido, a desfaçatez, o egoísmo, o chico-espertismo, a maldade e a ignorância. Será que a insignificância veio para ficar?
A competição tornou-se escrava da inveja, olha-se para o lado não para conhecer, mas para verificar se existe algum perigo de ultrapassagem nesta corrida desenfreada do nada, um nada que é tudo para a maioria. Ocorre-me a imagem da mão a fechar-se sobre um punhado de areia, bem que podem apertar, domar, mas a areia escapa, não lhes pertence. A ideia da posse envenena tudo, iludirmo-nos com esse poder e desejarmos possuir talvez seja a prova do quanto nos sobrevalorizamos. Então é como se nos víssemos rodeados de pessoas inflacionadas, uma inflação de avareza, inveja e ignorância, que no seu conjunto nada acrescentam de útil aos indivíduos, apenas os redundam na sua frivolidade.

sábado, 24 de maio de 2014

Um debate a sério e à britânica!


Num momento tão baço da Política Portuguesa e Europeia partilho um verdadeiro exemplo de debate político. Um excelente momento da Sr.ª Thatcher já no final dos seus tempos como Primeira-ministra, em 1990, um ano antes de eu nascer. Vale a pena ver e comparar as diferenças com os outros parlamentos, como o nosso, por exemplo. Aqui os adversários não têm problemas em admitir aquilo que de bom se faz do outro lado, discutem-se ideias, que o são no sentido literal da palavra, não artifícios como cá. Mas a maravilha está no discurso - inteligente, cativante, mordaz, irónico, sarcástico, vivo! Existe uma combatividade particular no debate político britânico que o torna único. Contudo, destaco neste vídeo dois pontos, primeiro um momento hilariante de riso proporcionado pela tirada inteligente de um membro da oposição que anuncia que Margaret Thatcher depois de deixar o cargo de Primeira-ministra será a Governadora do Banco Central Europeu, o que a leva ao riso, tal como todo o parlamento, sabendo-se publicamente o desamor de Thatcher pela Europa e segundo, a sua mesma opinião sobre aquilo que o Banco Central não devia ser e como hoje, aquilo que ela afirmava se veio a confirmar. Como ela dizia, um banco central europeu com a mesma moeda seria uma forma de controlar a política de todos os países e, consequentemente, a sua liberdade. Pessoalmente, creio que Margaret Thatcher além de uma enorme carreira política foi uma visionária e uma excelente pensadora sobre o projecto europeu.
Que hoje, neste dia de eleições europeias, este vídeo possa servir de inspiração para uma mudança necessária no debate político nacional e europeu. Como dizia Thatcher "a política precisa de ideias, não de estados de alma". 

sexta-feira, 28 de março de 2014

Portugueses trabalham pouco, diz eurodeputado austríaco - Globo - DN

Portugueses trabalham pouco, diz eurodeputado austríaco - Globo - DN







Pois trabalhamos senhor eurodeputado austríaco de extrema-direita! Contudo, se o senhor pensasse tanto quanto nós, portugueses, trabalhamos, talvez não dissesse tanto disparate e contribuísse verdadeiramente para o debate europeu!!! Nas próximas eleições, votemos e lutemos para que partidos como o deste senhor, não se espalhem e semeiem a demagogia e a ignorância na Europa!

P.S. - Sabe e se os austríacos e os alemães são os únicos que entram às 9h no trabalho, fique a sentir-se mal, porque muitos portugueses, ao contrário do que diz, cumprem o seu horário na íntegra e não entram às 11h mas sim às 8h.

terça-feira, 25 de março de 2014

As Pequenas Memórias - José Saramago





Acabo de ler As Pequenas Memórias de José Saramago e a sensação é de vazio. Mau sinal? Pelo contrário. Quando gostamos muito de um livro, como eu gostei deste, e o lemos quase compulsivamente, no final, fica um vazio. "E agora? Para onde foram? E eu? Deixam-me aqui?" - Talvez nos perguntemos a nós próprios tudo isto.
Saramago levou tempo a chegar à minha vida. Comecei a espreitá-lo de longe, a lê-lo nas entrevistas, a vê-lo nos vídeos e no filme José e Pilar, mas acima de tudo, a discuti-lo e a aprender a gostá-lo com a minha amiga e ex-professora Elisabete. Devo-lhe este caminho. E talvez por este mesmo caminho, ao ler parecia ouvir a voz dele a contar-me as suas histórias.
As Pequenas Memórias é um livro de memórias, como o título indica, que me permitiu revisitar muitas histórias e passar horas envolto em magia e ternura. Não obedecendo a uma linha cronológica rígida e sucessiva, pois as memórias também não se organizam estrategicamente em filas de cores ou por ordem alfabética, as vivências de José Saramago vão surgindo conforme vai trilhando o seu caminho na escrita.
Quando digo que revisitei histórias, claro que muitas delas não foram vividas por mim, mas sim pelo meu pai, pelos avós, tios, que me foram confiando ao longo da minha jovem existência episódios da simplicidade da vida de antigamente, simplicidade que contrastava com uma vida dura, de trabalho árduo, pobreza e ausência total de luxos. E eu cresci perto do campo, numa aldeia, conheço essas realidades, nem que seja por as ter ouvido.
Começando por recordar os extensos olivais da Azinhaga da sua infância, que deram lugar aos infindáveis campos de milho híbrido, Saramago vai-nos falando da sua meninice, dos avós maternos - a avó Josefa e o Avô Jerónimo (recordou-me o meu bisavô Jerónimo que viveu até aos 97 anos, não sabia ler nem escrever e era um poço de alegria apesar da vida sofrida que tivera, trabalhando até aos 80 anos quando se reformou e criando os seus numerosos filhos, mais aqueles que apareciam e que tanto ele como a Avó Joaquina, nunca deixavam sem tecto e sem comida. A mesma bisavó que já velhinha, sentada e sem se poder mexer, me ouvia a correr em direcção a ela, com uns 2 ou 3 anitos e dizia para a filha "Lá vem o nosso menino". É talvez a imagem mais antiga que tenha, correr e agarrar-me às pernas daquela velhinha, que me adorava e me fazia festinhas no cabelo, despertando de um cansaço de viver há muitos anos.), das brincadeiras com o seu primo José Dinis, os primeiros namoricos e descobertas do corpo, do seu e do feminino, da horta e das barrãs e bacorinhos dos seus avós, da maneira como a avó Josefa controlava as despesas que fazia, num caderninho, usando um esquema de bolinhas, cruzes e pauzinhos que nunca a enganava, mas também das dificuldades em Lisboa, nas mais de dez moradas que partilhou com os seus pais. Casas onde dormia no chão, só havendo um quarto, o dos seus pais, chão onde durante a noite, deitado, lhe passavam as baratas por cima. Conta-nos o seu percurso escolar, a forma como muitas vivências o inspiraram na escrita de outros livros e em pinceladas entremeadas de humor e de uma racionalidade desconcertante faz-nos mergulhar na imensidão dos seus pensamentos e das suas recordações, ora doces e saudosas ora amargas e melancólicas.
Não quero contar o desfecho do livro, nem a sua história. Penso que deve ser lido e cada um deverá saboreá-lo com a inocência da primeira vez. Contudo deixarei de seguida, alguns excertos deste maravilhoso livro onde Saramago fala dos avós. E quem "teve" avós partilhará comigo o carinho destas descrições:

Muitos anos depois, minha avó contou-me que, quando me entregavam aos seus cuidados, ela me sentava na casa de fora, em cima de uma manta estendida no chão, donde, às tantas, lhe chegava a minha voz: "Ah bó, bó." "Que queres tu, meu filho?", perguntava ela. E eu respondia, lacrimoso, chupando o dedo polegar da mão direita (seria da mão direita?): "Eu quero caca." Quando ela acudia ao pedido de socorro era tarde de mais. "Já estavas todo borrado", dizia-me a avó, rindo.



Ainda não falei dos meus avós paternos. Como costumava dizer o poeta Murilo Mendes do inferno, existir, existiam, mas não funcionavam. (...) Quem não apreciava nada esta preferência incondicional pelos avós maternos era o meu pai, que um dia, tendo eu dito "os meus avós", referindo-me aos pais da minha mãe, corrigiu secamente, sem se dar ao trabalho de disfarçar o despeito: "Tens outros." Que havia eu de fazer? Fingir um amor que não sentia? Os sentimentos não se governam, não são coisas de tirar e pôr de acordo com as conveniências do momento, menos ainda se, pela idade, é um coração desprevenido e isento o que levamos dentro do peito.


Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventas anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer." Assim mesmo. Eu estava lá.



Aproveito ainda, finalizando, desejar que este livro possa ser lido como prova do talento e obra de José Saramago, pois é cansativo e injusto ouvir muita gente a falar dele caindo habitualmente em lugares comuns. É necessário compreender a inteligência e humor deste grande escritor, que não prima por ser fácil e fugir a reflexões e críticas construtivas ao que o rodeia.