Para compreender este romance é fundamental compreender o
tema de toda a obra de Mário de Sá-Carneiro e a sua derivação do Modernismo
Português. Penso que o grande tema do Modernismo Português é uma certa angústia
do "Eu", personificada em Fernando Pessoa com a sua desmultiplicação
do Eu, dando origem aos heterónimos; em Almada Negreiros com o "Eu" e
a sua relação com a Sociedade evidenciada em Nome de Guerra e em Mário de Sá-Carneiro, com a relação entre o
"Eu" e o "Outro".
Mário de Sá-Carneiro brinda-nos em toda a sua obra com o tema
central do "Eu" e do "Outro". Um "Eu" decadente e
descontente consigo próprio e que vê o seu ideal de perfeição espelhado no
"Outro". Então tenta alcançá-lo, possuí-lo e como que por muito que
se aproxime, que lhe toque, não chega a possuí-lo, é nos oferecido também um
outro tema - que deriva desta relação entre o Eu e o Outro - que é o drama da
posse, onde o "Eu" sofre por já não conseguir voltar a si próprio e
por não ter alcançado o seu ideal de perfeição. No fundo, este "Eu"
está "Aquém" e o "Outro" está "Além".
E "A Confissão de Lúcio" não foge a este tema
central, muito pelo contrário - Lúcio representa esse "Eu" decadente
que vê no Ricardo, o seu ideal de perfeição. E na impossibilidade de possuí-lo,
lidando com a ponte de tédio que leva este "Eu" ao
"Outro", cria Marta, esposa de
Ricardo, com quem poderá satisfazer os desejos e ambições, a posse, que em último
caso, com Ricardo seriam impossíveis.
Mário de Sá-Carneiro é considerado o Poeta Ícaro, precisamente,
devido a este tema, tal como no Mito de Ícaro, onde Ícaro ambiciona voar e
aproxima-se demasiado do Sol com as suas asas de cera, que derretem e o lançam
numa queda vertiginosa, falhando o seu objectivo de voar em plenitude; este
"Eu" também quase possui o "Outro", mas acaba por falhar,
por não possuir.