Decorridos estes anos de austeridade, sobrou deserto. Onde está a esperança? Na semana passada um rapaz de erasmus, italiano, dizia-me "Os portugueses são estranhos, parece que andam sempre zangados, cabisbaixos, se entra alguém de fora ninguém vai ter com ele." Eu percebi o rapaz. Há um cansaço e desalento nos portugueses que é castrador. Talvez se lhe tivesse mostrado esta música ele perceberia o nosso desânimo. Tiago Bettencourt é dos melhores músicos e compositores deste país, há muitos anos que gosto dele. Penso que qualquer português que oiça esta sua nova música não ficará indiferente. Mais uma vez, o seu génio toca-nos.
Aquilo que eu não fiz.
Eu não quero pagar
Por aquilo que eu não fiz,
Não me fazem ver
Que a luta é pelo meu país.
Eu não quero pagar
Depois de tudo o que dei,
Não me fazem ver
Que fui eu que errei.
Não fui eu que gastei,
Mais do que era para mim.
Não fui eu que tirei,
Não fui eu que comi,
Não fui eu que comprei,
Não fui eu que escondi,
Quando estava a olhar,
Não fui eu que fugi.
Não é essa a razão
Para me quererem moldar.
Porque eu não me escolhi
Para a fila do pão.
Este barco afundou,
Houve alguém que o cegou,
Não fui eu que não vi.
Talvez do que não sei.
Talvez do que não vi.
Foi de mão para mão,
Mas não passou por mim.
E perdeu-se a razão,
Todo o bom se feriu.
(...)
Não me falem do fim
se o caminho é mentir.
Se quiseram entrar,
Não souberam sair.
Não fui eu quem falhou,
Não fui eu quem cegou.
Já não sabem sair.