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sábado, 24 de maio de 2014

Um debate a sério e à britânica!


Num momento tão baço da Política Portuguesa e Europeia partilho um verdadeiro exemplo de debate político. Um excelente momento da Sr.ª Thatcher já no final dos seus tempos como Primeira-ministra, em 1990, um ano antes de eu nascer. Vale a pena ver e comparar as diferenças com os outros parlamentos, como o nosso, por exemplo. Aqui os adversários não têm problemas em admitir aquilo que de bom se faz do outro lado, discutem-se ideias, que o são no sentido literal da palavra, não artifícios como cá. Mas a maravilha está no discurso - inteligente, cativante, mordaz, irónico, sarcástico, vivo! Existe uma combatividade particular no debate político britânico que o torna único. Contudo, destaco neste vídeo dois pontos, primeiro um momento hilariante de riso proporcionado pela tirada inteligente de um membro da oposição que anuncia que Margaret Thatcher depois de deixar o cargo de Primeira-ministra será a Governadora do Banco Central Europeu, o que a leva ao riso, tal como todo o parlamento, sabendo-se publicamente o desamor de Thatcher pela Europa e segundo, a sua mesma opinião sobre aquilo que o Banco Central não devia ser e como hoje, aquilo que ela afirmava se veio a confirmar. Como ela dizia, um banco central europeu com a mesma moeda seria uma forma de controlar a política de todos os países e, consequentemente, a sua liberdade. Pessoalmente, creio que Margaret Thatcher além de uma enorme carreira política foi uma visionária e uma excelente pensadora sobre o projecto europeu.
Que hoje, neste dia de eleições europeias, este vídeo possa servir de inspiração para uma mudança necessária no debate político nacional e europeu. Como dizia Thatcher "a política precisa de ideias, não de estados de alma". 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A insustentável desfaçatez do ser!



Há alguns dias atrás, andava eu pelo Youtube a ver alguns vídeos de entrevistas antigas dos nossos políticos e achei esta pérola. Confesso, que seria para muitos hilariante, se não causasse tanta repulsa. Assumidamente, sou um grande crítico de Paulo Portas. Personifica o que de pior há na política, a desfaçatez, a posição camaleónica de se transmutar no que mais lhe convém, a falta de palavra, os jogos baixos, os ataques mesquinhos a outros políticos, o criar notícias e burburinho, a arrogância desmedida, a demagogia entranhada e bafienta e por fim, o vazio, o grande vazio que é, fruto talvez de uma ambição desmedida, sem olhar a meios para alcançar os fins. Lamento Dr. Paulo Portas, mas já que elege Winston Churchill como o seu político favorito, digo-lhe que está longe de ser algum dia o Estadista que Churchill foi.

Este vídeo pode ser dividido em 3 partes: a primeira onde Portas fala de política e das suas ideias e convicções, a segunda onde ataca violentamente Cavaco Silva e a terceira onde fala sobre o jornal O Independente e sobre a sua visão de jornalismo.

Na primeira destaco estes excertos:

Paulo Portas: "Os Partidos são uma maçada, (...) e ser militante de um partido é uma grande maçada, porque, normalmente, quem vai para os partidos, (...) os quadros dos partidos, normalmente, são muito medíocres, são pessoas muito medíocres que não têm mais nada que fazer na vida ou que acham que aquela é a forma principal de subir na vida. A mim não me passa pela cabeça nem ir para um partido subir na vida... Os partidos dispensam o mérito."

"Entrevistadora: Não tens ambições políticas?

Paulo Portas: Nenhumas, é uma coisa que eu decidi na minha cabeça, se há coisas definitivas na minha vida e na minha cabeça, uma delas é essa. Eu gosto imenso de política, mas nunca farei política."  
(Pois é Dr. Portas, nós já sabemos o peso que o senhor dá às palavras, sejam elas "definitivo" ou "irrevogável"...)

P.P. : "Eu sou totalmente liberal do ponto de vista económico, mas não me passa pela cabeça aceitar, por exemplo, a União Política da Europa em consequência da União Económica da Europa. Eu não aceito que uma utopia liberal, que aliás não é liberal, a Europa em termos reais não é liberal, é muito burocrática, muito regulamentadora e muito socialista, no sentido filosófico do termos. Eu não aceito que uma utopia de mercado de 320 milhões de pessoas dê cabo da ideia de nação ou dê cabo da ideia de Pátria." 
(Meu caro amigo, ao vivermos numa época onde não há regulação dos mercados desde Thatcher e Reagan, nós estamos à mercê dos mercados, e à sua auto-regulação desenfreada, por isso os nossos juros sofrem tanto meu amigo. E consequentemente, as pessoas e o país. Já não é uma utopia de mercado é uma realidade, que actualmente subscreve.)

Na segunda parte, onde vai bem longe nas críticas a Cavaco Silva:

P.P. : "O Doutor Cavaco Silva é tudo e o contrário de tudo!"

P.P. : Eu acho injustas três comparações que se fazem com o Doutor Cavaco. Acho injusto comparar o Doutor Cavaco com o Dr. Salazar.

Entrevistadora: É injusto para quem?

Paulo Portas: Para o Dr. Salazar em muitas coisas, porque o Doutor Cavaco não é democrata nem deixa de ser. O Dr. Salazar era voluntariamente anti-democrata. Era a opção dele, ou seja, tinha preocupações e pensamento político. O Doutor Cavaco não tem, nessa matéria.  
Em segundo lugar, o Dr. Salazar escrevia admiravelmente, como é sabido (...) e em terceiro lugar era um cínico como eu acho que não se repete na vida política portuguesa, e eu acho, que o Doutor Cavaco, para estabelecer mais duas diferenças: como se sabe não escreve nada de especial nem fala nada de especial, é mesmo muito maçador, e também não é cínico como o Dr. Salazar. Está longe disso, está longe dessa, desse raffinement no exercício do poder.

Quanto à terceira parte, no final do vídeo, não vou destacar nenhum excerto, apenas refiro que é evidente a forma como lida com as notícias, defendendo que a sua interpretação delas é válida e necessária, não aceitando assim críticas de deturpação, mas defendendo-se com a tese da interpretação. Curiosa, esta isenção jornalística...

Ver este vídeo, mostra-nos bem a coerência do nosso vice-primeiro-ministro e a forma como tem passado por entre os pingos da chuva, até ter chegado onde chegou. Aludindo ao título do meu post, é de facto insustentável, tamanha desfaçatez.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

A última batalha de Soares!


        


 Antes de começar, não posso deixar de referir o devido respeito que nutro pela figura do Dr. Mário Soares e o reconhecimento inequívoco do seu papel na vida democrática de Portugal.
         Contudo, não posso deixar de censurar a sua postura nos últimos dois anos e a forma como tenta exercer pressão quer sobre o seu partido, quer sobre os órgãos de soberania e a sociedade civil.
         Soares assumiu desde cedo que a sua maior prioridade é derrubar o Governo de Pedro Passos Coelho. Posto isto, de  tudo tem feito para o conseguir, desprestigiando-se por vezes, com posições e discursos inflamados e demagógicos que em nada contribuem para o bem do país e para um diálogo  frutífero sobre a situação nacional.
         Vivemos tempos de extrema dificuldade e o presente governo tem tomado medidas altamente impopulares, algumas absolutamente necessárias, outras, mais questionáveis.  Contudo, aquilo que desgastou o governo e o desacreditou junto das pessoas, não creio que tenham sido tanto as medidas, mas a forma desastrosa de as comunicar, o extremismo com que assumiram algumas posições, a inexperiência que o Primeiro Ministro e alguns ministros revelaram na condução das suas pastas, a descoordenação política e por fim, a queda para o mediatismo e para o protagonismo individual que  alguns ministros evidenciaram, começando com Miguel Relvas fazendo uma declaração pública  de demissão muito contrastante para quem não tinha forças anímicas, seguindo-se da carta de Vítor Gaspar, absolutamente ridícula e censurável para quem fora Ministro de Estado e deveria revelar sentido de Estado e por último, o deplorável espectáculo de Paulo Portas com a sua carta de irrevogabilidade.
         Tudo isto deve ser alvo de censura, obviamente. Porque revela o desnorte dos nossos políticos  e o desrespeito  e despudor perante todos os portugueses que ao longo destes dois anos, têm suportado pacientemente e ainda que com muita dificuldade as mais diversas adversidades : brutal aumento de impostos, perda do poder de compra, desemprego, entre outras.
         Todavia toda esta calma não advém de poderosas capacidades de abstração do povo lusitano, mas sim da crença que muito daquilo que está a ser decidido é inevitável. E é aqui que a demagogia dos partidos os fere brutalmente.
É ÓBVIO que temos de cortar na despesa, ÓBVIO. E o PS aperceber-se-á , se não percebeu já, que o seu discurso anti-austeridade e facilitista não tem aderência à realidade. Seguro até agora, revelou-se um vazio de ideias, apenas propôs duas coisas tão vagas e incertas que não convenceram ninguém: negociar com a Europa melhores condições e mais dinheiro e menos juros. Contudo, sejamos francos, se isto fosse tão fácil e exequível não estaria já resolvido? Pois é, Seguro quer ser Primeiro-Ministro com base na boa vontade da Europa e isso é como tentar conter um punhado de areia numa peneira. Pior, é ser demagógico, porque desenganem-se que tudo isto resulta de uma posição de subserviência de Passos Coelho a Merkel, pois recordo que Sócrates também a tinha. E todos na Europa a têm, até o delfim François Hollande que prometia salvar a Europa e nem o seu país parece ser capaz de salvar.
         Também o PSD foi vítima da demagogia partindo para eleições em 2011 dizendo que bastaria cortar nas gorduras do Estado, apontando gastos excessivos com gabinetes, frota do Estado e Parcerias Público-Privadas, (PPP's) entre outros. Só  que isso não representa o grosso da despesa. E agora quando é necessário mexer no Estado Social e reformar o Estado, o PSD fica sem chão, porque prometeu um caminho de corte fácil, que não é suficiente. E ainda que já tenha cortado muito, cerca de 10 mil milhões de Euros na despesa pública do Estado, o que é óptimo, renegociando PPP's e as rendas excessivas no sector eléctrico, parando obras desnecessárias, cortando em áreas apontadas na campanha eleitoral, entre outras medidas, chegou a altura de cortar onde é mais difícil e depois de tanto ter aumentado impostos, alguns deles, como o caso do IVA na restauração, que representa um erro CRASSO na política económica do governo e que gerou imenso desemprego, há um enorme atrito a tudo o que é anunciado pelo governo.
         Alguns especialistas e analistas, apontam que o nosso País tem de ter uma despesa pública de cerca de 70 mil milhões de Euros para que consiga ser suportada pela Economia que temos, e em 2011, o valor da despesa era de 90 mil milhões. Até agora, o governo já cortou 10 mil milhões e a guerra que se trava hoje, é pelo corte de mais 4.700 mil milhões de Euros.
         Penso que é inevitável, com um Estado Social construído em toda a Europa com base num crescimento anual de cerca de 6% do PIB algo que não se verifica a algumas décadas e em Portugal, muito menos, na última década crescemos cerca de 1%; com um país e com uma Europa desindustrializados e com débeis níveis de crescimento  e altos níveis de desemprego, torna-se absolutamente necessário ajustarmos o nosso Estado Social e as funções do Estado. Contudo, defendo que tem de ser algo bem estudado e programado, não podem ser cortes cegos, feitos num ano. E  é esta questão que faz com que os Partidos se tenham de unir, como apelou o Presidente da República.
         Independentemente da crise política que se gerou na maioria parlamentar e que em situações normais, mereceria a dissolução do parlamento, a generalidade das pessoas entende que eleições antecipadas não seriam a melhor opção. E de facto, não seriam, porque o PS ainda não está preparado para governar, porque a Reforma do Estado tem de ser feita e tem de haver estabilidade nos próximos anos, para retomarmos o crescimento e efectuarmos reformas estruturais. Assim, têm de se criar compromissos entre os vários partidos, que assegurem que certos pilares serão respeitados e seguidos, sejam quais forem os partidos que estejam no governo.
         Desta feita, acho inadmissível que Mário Soares venha agora pressionar António José Seguro com uma possível cisão no Partido Socialista e dizendo que "ficaria muito chateado" com um possível acordo. É profundamente lamentável. Tudo tem de mudar Dr. Mário Soares e se tiverem de haver cisões nos vários partidos da governação, se surgirem novos partidos e se os mesmos se abrirem à sociedade civil (o que mais tarde ou mais cedo, acontecerá), é sinal que a democracia está a crescer e a ser mais exigente.
         Não sei qual será o desfecho destas negociações, mas não posso deixar de elogiar a postura de António José Seguro, que  soube estar à altura do que lhe era pedido e teve a maturidade suficiente para entrar no diálogo e enfrentar o Partido, a bem do país.
         Mário Soares tem de entender que o seu tempo acabou. O eterno líder do PS deixou de o ser, Mário Soares já não é mais líder partidário, já não é mais Primeiro-Ministro ou Presidente da República. Não lhe cabe a ele definir o que Partido Socialista faz, condicionar a acção do secretário geral do Partido e dizer ao Primeiro-Ministro e ao Presidente da República o que hão-de fazer. Há um desespero em Mário Soares, que além de ser triste, só lhe retira a credibilidade. Vejamos a sequência de acontecimentos -  falta às cerimónias do 25 de Abril por protesto contra o Governo, sendo um antigo Presidente da República tem o dever de saber que essas cerimónias, são de carácter parlamentar e onde o governo nem faz uso da palavra, assim, só fortaleceu ainda mais o governo, dando-lhe protagonismo numa situação onde não o tinha; de seguida, cria uma convenção de todas as esquerdas onde tenta criar uma coligação dos partidos à esquerda, para um possível governo, mas António José Seguro desmarca-se (e bem!) e nem comparece à iniciativa; seguem-se declarações ridículas onde diz temer pela vida de Cavaco e Passos Coelho, pois por muito menos, Sidónio Pais foi assassinado e por último, não posso deixar de referir a tentativa falhada de sedução que iniciou a Paulo Portas e ao CDS, começando por dizer que Paulo Portas tinha sido humilhado pelo governo, que merecia consideração e que estava a ser chantageado, tese que acabou no momento em que Portas aceita ser vice-primeiro-ministro, algo que o irritou profundamente e que o fez baptizá-lo de "salta-pocinhas".
         Tudo isto é lamentável. Num momento tão delicado que se vive desde a entrada da Troika em Portugal, com tanto ruído e com uma necessidade enorme de sensatez naquilo que se diz, Mário Soares, vem a cada dia desbaratar ainda mais a sua figura de Senador da República e assim, revela, em detrimento da postura oposta e sábia de Jorge Sampaio, que se tem revelado profundamente sensato naquilo que defende e um grande Estadista, que não sabe exercer da melhor forma o papel de Senador da República, pois ainda não entendeu que é altura de se retirar do ringue e deixar que os seus "filhos" e "netos" combatam. 
         O seu papel exige recato, Ramalho Eanes e Jorge Sampaio bem o sabem, pois afinal de contas, como o povo diz "a mesma água não passa duas vezes pelo mesmo moinho" e a miríade de declarações de Mário Soares em nada ajudam o país e só lhe retiram a força e a credibilidade que por direito lhe eram reconhecidas.
         Temo que esteja a ficar sozinho no seu campo de batalha e que a sua cruzada contra o governo já não seja sequer a prioridade do seu partido. Pois até o seu partido, já percebeu que o que se vive e o que nos é exigido a todos e ainda mais aos responsáveis políticos, ultrapassa e muito a vida deste governo e exige o  compromisso e o esforço mútuo de todos. Por conseguinte, por muito que não se goste deste governo e há razões para isso, a solução não passa pela queda imediata dele e pela eleição do PS com um programa cheio de facilidades e utopias, porque seria uma fraude. Nada será fácil e Mário Soares não conseguiu vingar com a sua ideia  de que basta Passos Coelho cair e tudo ficará bem. O governo irá cair seja daqui a um ano, seja em 2015, mas penso que Mário Soares não poderá reclamar vitória de nada, pois escapou-se-lhe das mãos qualquer hipótese de protagonismo. Quando acontecer, acontecerá porque assim tinha de ser e talvez aí, perceba que desperdiçou muito da sua figura ao descer a um patamar do qual já se tinha elevado.

sábado, 22 de junho de 2013

Marques Mendes - O quase comentador




Marques Mendes tenta já há algum tempo singrar no espaço do comentário político em Portugal. Militante do PSD, ex-líder do partido e, particularmente, próximo de Pedro Passos Coelho, tenta inovar no seu comentário mas acaba titubeando naquilo que diz e na forma como o diz.

Pessoalmente, não aprecio a forma como faz comentário político, onde se evidencia claramente a sua tentativa de fazer sombra a Marcelo Rebelo de Sousa. O crescente mediatismo e a forma desastrada como introduz novidades no seu comentário, tal como sempre fez Marcelo Rebelo de Sousa, só que com génio e inteligência, faz de Marques Mendes um comentador algo próximo de uma diva televisiva.

Enquanto Marcelo sabe conciliar o facto de ser militante do PSD, ex-líder partidário e a sua isenção como comentador, preenchendo o seu comentário com outros assuntos da sociedade e nunca abdicando do seu lado académico, que lhe reforça a credibilidade, Marques Mendes consegue mostrar alguns dados, por vezes, enviesados e consegue anunciar factos que só prejudicam o Governo e o Presidente da República. Tudo para mostrar que é o primeiro a saber e a anunciar tais acontecimentos. E é nisto que se nota, o quanto está em "bicos de pés" para que todos o vejam (literalmente).

Recordo dois anúncios desastrosos, um ainda enquanto comentador na TVI 24 onde anunciava antes do Governo e de qualquer outra entidade, os cortes na despesa aconselhados no relatório do FMI discriminando os valores específicos por cada sector do Estado e outro, já na SIC onde anunciava antes de toda a gente e do próprio Presidente da República, que ia ser marcado um Conselho de Estado, que depois não veio a acontecer na data prevista e que causou alguma revolta entre os outros conselheiros e fragilizou ainda mais a figura do Presidente da República, tendo em conta, que cabe ao Presidente marcar e anunciar as datas dos Conselhos de Estado.

Assim, Marques Mendes que tanto critica o Governo pelas suas falhas de comunicação e coordenação (e com razão), acaba por cometer erros de principiante que não lhe reforçam a sua imagem de comunicador.

Não lhe condeno ao insucesso o seu futuro no comentário político, creio que poderá evoluir e emendar-se, mas terá de perceber uma coisa, um bom comentador político tem de saber dançar sem se deixar agarrar, não se escondendo em demasia, nem se expondo descaradamente. E é nesta dança, que Marques Mendes ainda não afinou o passo(s) (Bem tenta afiná-lo).

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Não banalizem o 25 de Abril!





Hoje é dia de liberdade, 39 anos depois da Revolução dos Cravos, é dia de comemorar a liberdade de expressão. No entanto, por mais que eu pudesse falar do 25 de Abril de 74 é o 25 de Abril deste ano e dos anteriores que me incomoda. Incomoda, porque assisto permanentemente a uma banalização vergonhosa deste dia. Sem dúvida, que o 25 de Abril foi um marco incontornável da História Portuguesa, ao qual, devemos estar profundamente gratos. Contudo, devemos estar conscientes daquilo que é passado e das circunstâncias em que se viveu este dia.
Oiço nas  notícias e nas ruas, pessoas mais velhas e jovens a dizerem que precisamos de um novo 25 de Abril. Saberão o que estão a dizer? Creio que não! E não devemos deixar que as dificuldades e o desespero das pessoas lhes tolde o juízo, impossibilitando uma visão clara das coisas.
É certo que vivemos um período muito difícil, há uma enorme degradação económica e das condições sociais, um desemprego galopante, mas não é comparável, de longe, à vida que existia antes de 1974.
Os jovens da minha idade e mesmo os mais velhos que dizem que precisamos de um novo 25 de Abril, parece que se esquecem de que a Revolução aconteceu, após mais de 40 anos de Estado Novo, uma ditadura férrea conduzida por António de Oliveira Salazar, onde ninguém se podia expressar livremente, onde a censura reprimia tudo, músicos, jornalistas, actores, escritores, onde existiam prisões políticas e tortura. Ninguém podia manifestar-se ou dizer o que a sua consciência ditava, de forma segura. Esquecem-se também dos 13 anos de Guerra Colonial, onde os mais jovens agonizavam com medo de serem chamados para um disparate sem fundamento que mutilou, vitimizou e traumatizou centenas de pessoas, que ainda hoje, homens maduros não recuperaram, vivendo afectados por acessos de memórias dilacerantes que os visitam em amargas vigílias nocturnas. Isto para não falar das famílias, dos pais que viram os seus filhos partirem sem regresso. 
E falemos de Estado Social e protecção dos desprotegidos antes de 1974 - não é comparável aos dias de hoje em nada. A pobreza era muito superior, os cuidados de saúde não eram alargados a toda a população, a taxa de analfabetismo era monstruosa, subsídios de apoio aos cidadãos quase não existiam, a taxa de mortalidade infantil era elevadíssima, não existia Sistema Nacional de Saúde, a despesa social era residual como se pode ler nesta notícia do Jornal i ( http://www.ionline.pt/portugal/conta-me-foi-portugal-ja-nao-era-no-25-abril ) onde actualmente, gastamos mil vezes mais em saúde do que em 1975. 
Também os responsáveis políticos e os chamados Capitães de Abril, creio que estão a ajudar à banalização desta data. Quando Mário Soares e estes senhores, dizem não estar presentes na cerimónia anual a realizar na Assembleia da República por censurarem o actual Governo e discordarem dele, querendo a sua queda, estão a ser míopes. Em primeiro lugar, porque a cerimónia tem carácter parlamentar, o governo nem faz uso da palavra, apenas fica sentado a ouvir. Falam o Presidente da República e representantes dos Partidos, assim numa cerimónia onde o Governo não tem protagonismo, gestos como os do Dr. Mário Soares, só lhe aumentam o protagonismo. Em segundo lugar, são míopes porque estão a reduzir esta data a lutas partidárias e a tentar usar uma bandeira do passado para forçar soluções algo duvidosas no presente, contra um governo democrático, goste-se ou não dele.
Prestemos dignidade à História e tenhamos lucidez na análise do Presente. Por maiores dificuldades que estejamos a viver, não creio que possamos dizer que queremos um novo 25 de Abril, com intervenção dos Militares e com a suspensão do regime. Pois pensem, se suspenderem este regime, teremos o quê? 
25 de Abril é liberdade e gratidão e não uma tentativa consecutiva de repetir as conquistas do passado nos dias de hoje.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Margaret Thatcher - O legado


Margaret Thatcher ( 13 de Outubro de 1925 - 08 de Abril de 2013)



Na segunda-feira passada, dia 08 de Abril de 2013, faleceu uma das maiores referências políticas do Mundo Ocidental. Margaret Thatcher revolucionou para sempre o Reino Unido, a Política e o Mundo. Filha de um merceeiro, desde muito nova foi-lhe incutido o espírito de trabalho, a noção de que se tinha de ter iniciativa própria e de que não se podia esperar pela ajuda de outrem para se progredir na vida. Teve uma educação austera, estudou em Oxford onde se licenciou em Química.
Mas Margaret Roberts,  assim se chamava em solteira, sempre se sentiu fascinada pela política, pelos discursos que o seu pai fazia enquanto político local em Grantham e embora, todos lhe dissessem que a política era algo vedado às mulheres, não se convenceu.
Tentou algumas vezes tornar-se deputada no Parlamento Inglês, nomeadamente, em 1950 e 1951, mas não conseguiu reunir votos suficientes. Embora na segunda eleição tenha aumentado e muito o número de votos, tendo sido a segunda candidata mais votada.
Entretanto, casou-se com o empresário Denis Thatcher em 1951, com quem teve dois gémeos, Carol e Mark em 1953. Graças a este casamento, Margaret Thatcher conseguiu obter sustento durante as suas iniciativas políticas e pôde também mais tarde licenciar-se em Direito. Mas que não se pense que foi um casamento por interesse, ao longo dos anos muitos foram os momentos em que o casal testemunhou o seu amor e a sua forte ligação. (Figura 1)

Figura 1

Margaret subiu a pulso e tornou-se deputada no Parlamento Inglês, tendo lutado contra a hostilidade dos cavalheiros que a menosprezavam e subestimavam as suas qualidades intelectuais e políticas.
Mesmo dentro do seu partido, do início ao fim, nunca reuniu consenso e houve sempre quem não a aceitasse e a desvalorizasse. Em 1970, Edward Heath líder do Partido Conservador vence as eleições e forma governo, convidando-a para Ministra da Educação. No entanto, Edward Heath nunca gostou de Margaret Thatcher e desde logo a avisou para ser discreta no exercício das suas funções, o que não se verificou. Thatcher ficou conhecida como sendo uma guerreira na luta pelas suas ideias e opções e mesmo como Ministra da Educação sempre batalhou nesse sentido, o que não seria muito bem entendido pelo Primeiro-Ministro Edward Heath que durante o seu mandato enfrentou inúmeras greves e paralisações sectoriais, como foi o caso da greve dos mineiros. No entanto, enquanto todo o governo pensava que a melhor forma de lidar com estas manifestações seria aceder às exigências sindicais, Margaret Thatcher defendia que se devia fazer o oposto, enfrentando os sindicatos e assumindo uma postura firme na condução da política do governo. Não foi ouvida e entre várias dificuldades que o governo viveu, como os embargos petrolíferos em 1973, Edward Heath perde as eleições em 1974, passando a líder da oposição.
E como líder da oposição, Edward Heath era cada vez mais contestado e não era visto como o melhor líder do Partido Conservador, num momento de enorme crise no país.
Assim, Margaret Thatcher avança em 1975 para liderança do partido e vence as eleições, na primeira volta derrotando Edward Heath e na segunda volta, derrotando outro candidato e favorito de Heath - William Whitelaw. Torna-se então, líder do Partido Conservador a 11 de Fevereiro de 1975, tornando-se a primeira mulher a liderar um grande partido na Europa. (Figura 2)

Figura 2

Durante o tempo na oposição, foi uma líder feroz, assumindo posições neoliberais, defendendo a luta contra os sindicatos, a redução do peso do Estado na Economia, etc. Tudo isto, fez com quem muitas vezes não fosse aceite e tivesse níveis de popularidade muito baixos. Mesmo assim,  a 4 de Maio de 1979, Margaret Thatcher vence eleições com uma larga maioria e torna-se Primeira-Ministra, sendo pioneira mais uma vez como mulher neste cargo, em todo o mundo ocidental. (Figura 3)

Figura 3

Thatcher encontra um país em sérias dificuldades, considerado o "homem doente" da Europa. Altos níveis de desemprego, uma economia agonizada, a libra em queda, a inflação galopante, uma indústria ineficiente e uma enorme contestação social. Assim, contra tudo e todos, Margaret Thatcher  recusou-se ao simples papel de gerir o declínio do país e em vez disso enveredou por um duro caminho de austeridade com vista à recuperação da grandeza de outrora do Reino Unido, reduzindo o peso do Estado na Economia,  fechando todas as unidades industriais ineficientes, reduzindo a inflação e os benefícios sociais, etc. Muitos a criticaram, alguns ministros do seu governo tentaram demovê-la, mas para ela "apesar do remédio ser amargo, o doente precisa dele" e assim prosseguiu a sua política, conseguindo recuperar a Economia do seu país.
Também ficou conhecida por ter declarado guerra à Argentina pela ocupação das Ilhas Malvinas em 1982. Mesmo sendo os EUA aliados do Reino Unido, tentaram demovê-la dizendo que era escusado lançar uma guerra por um território tão longínquo e insignificante. Aí Thatcher relembrou aos EUA que o Hawai também era um território idêntico e que os EUA responderam contra os ataques japoneses em Pearl Harbor em 1941, deixando-os desarmados. E tendo-se proposto a combater a Argentina e recuperar a soberania sob as Malvinas, Thatcher saiu vencedora.
Margaret Thatcher também foi apelidada pelos russos de "Dama de Ferro" pela sua persistência e obstinação, o que mais tarde viria a revelar-se decisivo para o fim da Guerra Fria.
            Thatcher sairia do cargo de Primeira-Ministra a 22 de Novembro de 1990 pela mão do seu próprio partido. Ao longo dos anos e apesar de muitos sucessos, a sua obstinação e firmeza, as críticas de insensibilidade social e de prepotência fizeram com que o Partido Conservador quisesse mudar de líder com o objectivo de não perder as eleições seguintes. Deste modo, o partido convocou eleições internas às quais Margaret Thatcher venceu na primeira volta com uma ligeira maioria, sendo obrigada a ir a uma segunda volta. Consciente das suas condições e da previsível derrota na segunda volta, Margaret Thatcher renuncia ao cargo de Primeira-Ministra, saindo de Downing Street lavada em lágrimas e não escondendo a mágoa e a revolta de ter sido afastada não pelo povo, em eleições, mas sim pelos interesses do seu partido. No fundo, houve conservadores que nunca aceitaram a filha do merceeiro... (Figura 4)

Figura 4



            Saltando agora os aspectos biográficos, devo dizer que tenho uma profunda admiração por esta grande senhora e política. Quer se goste ou não dela, temos de reconhecer que Margaret Thatcher mudou o Mundo e foi uma visionária. Juntamente com Ronald Reagan (Figura 5) fundou o modelo económico instaurado no Ocidente, até aos dias de hoje, baseado na Economia de Livre Mercado, uma economia onde os mercados se auto-regulam. E apesar deste aspecto poder estar na base das crises financeiras que se vivem actualmente, permitiu durante muitos anos, prosperidade económica. Admito que se possa estar a fechar o ciclo, pois tudo tem um tempo, seja em política ou economia. 
           

Figura 5



"O remédio é amargo mas o paciente precisa dele"
Também neste momento, a crise que se vive em Portugal, as decisões políticas que são necessária, fazem lembrar a Inglaterra que esperava Margaret Thatcher em 1979. Seria bom que tivéssemos alguém na condução dos destinos do país com a determinação dela, na reforma do Estado Social e na redução do Estado na Economia, só assim o Estado consumirá menos recursos financeiros, nomeadamente crédito destinado às empresas, permitindo um maior acesso às empresas privadas, muitas delas PME's, que representam mais de 90% do tecido empresarial português. Só assim se poderá gerar emprego, além de ser necessário cortar na despesa do Estado. Este cortes, actualmente, muito contestados são ABSOLUTAMENTE necessários para que se possa reduzir o nível de fiscalidade aplicado aos contribuintes portugueses, ou seja, baixar os impostos e só assim, o Estado terá menos necessidades de financiamento. Veja-se o exemplo da Inglaterra - só com esta receita conseguiu recuperar economicamente.
           

Por último, creio que Margaret Thatcher criticou muitas vezes a União Europeia porque sabia que o caminho traçado não era o melhor. Thatcher conseguiu ter uma visão muito alongada do que iria acontecer e a crise europeia e das suas instituições que se vive hoje, foi muitas vezes anunciada por ela. Penso até, que faz falta na Europa alguém como Margaret Thatcher, firme e determinada, sem medo  de ser incómoda, alguém inteligente e com visão política, com noção do rumo que toma e como uma posição clara, bem argumentada e atempada, não uma líder como Angela Merkel, sem visão, sem rumo, demasiado preocupada com a imagem, sem carisma político e sem noção das diferenças que separam cada país europeu e que tornam cada país único. É a grande diferença de Angela Merkel e Margaret Thatcher, enquanto que Merkel quer copiar a realidade alemã para os países em dificuldades, Thatcher era uma defensora de uma austeridade inteligente e pormenorizada a par do crescimento económico e uma profunda conhecedora das diferenças entre países. Aliás dentro da sua ideologia política Thatcher dizia que o slogan "somos todos iguais" era demasiado redutor, pois para ela somos todos diferentes e é nessa diferença que reside o sucesso e a capacidade de nos interligarmos todos na busca do sucesso. (Figura 6)

Figura 6

Para reflectirmos acerca da visão dela sobre a Europa, vou deixar um excerto da sua obra  A Arte de Bem Governar editada em 2002 (Figura 7), onde poderemos ver o quanto a sua visão é actual:

"A Europa é, realmente, um Estado ou um império de pernas para o ar. Falta-lhe tanto da substância que está na base da solidez das fundações de um Estado ou de uma potência imperial, que só consegue subsistir através da satisfação de interesses instalados, cada vez mais poderosos. Basta deambular um pouco através da prosa europeia que enforma as directivas, as circulares, os relatórios, os comunicados e os debates "parlamentares", para se perceber que, na verdade, Europa é sinónimo de burocracia. É um governo da burocracia para a burocracia, a que se poderia acrescentar "pela" burocracia, "com" burocracia, etc. (...) Não: o que faz da Europa o supra-sumo da burocracia é o facto de que, em última análise, nada mais tem que a sustente.
As estruturas, os planos e os programas da União Europeia encontram em si mesmos a razão da sua própria existência. A Europa é uma variante da asserção cartesiana "Penso, logo existo", modificada para "Eu existo, logo eu faço" (...) "


Figura 7

Muito fica por dizer sobre Margaret Thatcher, no entanto, não estando impedido de voltar a escrever sobre ela, deixo aqui o meu contributo para recordar o percurso desta GRANDE senhora.

quinta-feira, 28 de março de 2013

O cidadão José Sócrates que um dia foi Primeiro-Ministro

Ontem o cidadão José Sócrates deu a sua primeira entrevista na RTP 1 após quase dois anos de silêncio e recato. Pediram-me que desse a minha opinião sobre esta entrevista e eu disponho-me a fazê-lo.

Em primeiro lugar, quero só referir que não alinhei nem assinei nenhuma petição contra o espaço de comentário político que José Sócrates vai ter. Não creio que seja correcto em Democracia exercer pressão para silenciar seja lá quem for. E o cidadão José Sócrates tem o direito de falar. Assim como, por exemplo, o cidadão Miguel Relvas também o tem, não devendo ser silenciado por ninguém. Com isto, podem-me questionar se sou adepto dos estilos deles ou das suas opções políticas. Ao qual respondo, convictamente, que não! Nunca apoiei José Sócrates, acho que foi irresponsável e obstinado e quanto a Miguel Relvas creio que deveria ter tido o bom senso de se demitir há muito tempo, evitando o desgaste de um governo que governa em condições absolutamente excepcionais. 
Por último, não quis entrar na demagogia dos argumentos que diziam que Sócrates ia ser pago pela RTP 1 com o dinheiro de todos os contribuintes, isto porque desde o início que desconfiei que ele não seria remunerado. Sócrates sabe que muito bem que  melhor do que o dinheiro é o poder que poderá exercer com as suas palavras. E por último, quanto a este assunto, uma das acções que as pessoas podem utilizar em forma de protesto é não seguir os comentários dele, fazendo com que o programa tenha audiências muito baixas. É uma ideia que é compatível com a liberdade de cada um e que não fere a Democracia.

Quanto à entrevista, propriamente dita, penso que foi mal conduzida, cheia de atropelos quer por parte dos jornalistas que faziam perguntas, constantemente de forma desarticulada e sem deixar responder, quer por José Sócrates que tentava impor de forma galopante todo um discurso de defesa. Talvez para a maioria das pessoas, tenha sido confuso.

Depois penso que José Sócrates riscou o disco na palavra "narrativa" que repetiu, inúmeras vezes, sem se dar ao trabalho de utilizar outros sinónimos. Aliás houve vários momentos da entrevista, na qual, José Sócrates teve a intenção de mostrar o seu reforço de conhecimento, não tendo sido feliz nalguns argumentos e adoptando um discurso moralista que neste momento é facilmente aceite sem pensar. Destaco duas afirmações dele : "Mas será que não conseguimos aprender nada com a experiência?"- referente às opções deste governo ou por último, a hilariante referência à Divina Comédia de Dante (há que mostrar que se leu um clássico durante  a estadia em Paris) para retratar a falta de esperança que se vive no país: "Sabe o que me faz lembrar o discurso do Governo ao longo destes dois anos? Faz-me vir ao espírito a frase da Divina Comédia do Dante quando se entra no Inferno, quando o personagem entra no Inferno: "Vós que entrais, abandonai toda a esperança"."

Relativamente aos ajustes de contas, Sócrates foi exímio como não era de estranhar, dando uma "bofetada" a Mário Soares por ter feito declarações ao semanário Sol contando conversas de bastidores, onde referia que tinha sido ele a convencer José Sócrates a pedir a ajuda externa. Sócrates refutou. De seguida, atacou o Presidente da República respondendo-lhe na mesma moeda, ou seja, Cavaco Silva criticou publicamente José Sócrates, um ex-primeiro-ministro, estando ele próprio em funções como Presidente da República. Assim, Sócrates não se compadeceu e arrasou-o publicamente, acusando-o de parcialidade e de oposição ao seu governo, tentanto fragilizar a já fragilizada figura do Presidente. Também este ataque evidenciou que ao longo do tempo de governação a relação entre Primeiro-Ministro e Presidente foi tensa e cheia de desconfiança e rivalidade.
No final da entrevista, José Sócrates ataca a imprensa, nomeadamente o Correio da Manhã por ter publicado notícias que alegavam a vida faustosa do ex-governante na cidade das luzes. Talvez muitos não se tenham lembrado, mas nessa altura e após a saída da TVI, Manuela Moura Guedes foi trabalhar para o Correio da Manhã. Parece-me que a troca de farpas continua entre os dois...


Quanto à sua governação, o discurso foi previsível, elencou como principais bandeiras dos seus governos a aposta na educação e formação e na energia, nomeadamente, nas renováveis. Segundo ele, trouxeram benefícios ao país e eram o caminho para a nossa independência e competitividade face ao exterior. Pois bem, eu até concordaria, caso não conhecesse o caminho de facilitismo que foi seguido na área de educação com 9.º e 12.º anos, feitos em 6 meses ou na questão energética, apostando nas renováveis mas assumindo rendas excessivas para o Estado que assegurava, exclusivamente, os riscos destas explorações energéticas. Aquelas mesmas rendas que a troika ordenou que fossem reduzidas e que fizeram com o actual Ministro Álvaro Santos Pereira  tivesse de efectuar cortes, num exercício que foi difícil e que para muitos ficou aquém do desejável.


No entanto, para mim a questão onde Sócrates esteve mal e onde tentou deturpar os factos foi na questão do endividamento, onde evidenciou algum desconforto e onde os jornalistas estavam mal preparados não sabendo contrapor argumentos. Segundo ele, a dívida pública deve ser vista em dois períodos, antes da crise  de 2008 e depois da crise de 2008. E então José Sócrates apresenta os seguintes dados:
- De 2005 a 2008 há um crescimento da dívida de 5% do PIB
- De 2008 a 2010 há um crescimento da dívida pública na ordem dos 20% do PIB lançando-a dos 71% para os 93 % do PIB
- De 2010 a 2012 há um crescimento da dívida pública na ordem dos 30% ficando a dívida pública nos 123% do PIB.

E é nestes dados que Sócrates foi pouco sério, uma vez que diz que a responsabilidade do crescimento da dívida de 2010 a 2012 é culpa do actual governo. O que é mentira, pois Sócrates governou até Junho de 2011... Logo, além de ser um argumento falso, espanta-me que os jornalistas não tenham reconhecido este facto.

Também na questão do aumento salarial de 2,9% dos funcionários públicos, o ex-governante pôs os pés pelas mãos, dizendo que a medida foi preparada em Setembro de 2008 quando tudo estava bem e que depois não podia voltar atrás. O que também é mentira uma vez que o orçamento de Estado para 2009 foi aprovado apenas em Novembro e antes disso, já a crise tinha surgido. No entanto, Sócrates defendeu a sua medida dizendo que foi o maior aumento salarial da década e que não se tratava de uma medida eleitoralista. 

Por último e aqui sim, a distorção dos factos foi flagrante, Sócrates falou das Parcerias Público-Privadas  (PPP's) com alguma desfaçatez, apresentando os seguintes dados:

- Existem 22 PPP's rodoviárias, no entanto, ele só lançou 8 delas.
- Em 2005 afirmou que os encargos líquidos que herdou das PPP's eram de 23 mil milhões de euros.
- Em 2012 diz que deixa como encargos líquidos com as PPP's 19 mil milhões de euros.

Pois bem, segundo especialistas e eu não o sou, José Sócrates utilizou um único critério para analisar as PPP's, o que não é muito sério. E melhor, eu também apresento alguns dados que ele não referiu:

- Lançou todas as PPP's da área da saúde, 10 ao todo.
- Apesar de só ter lançado 8 PPP's rodoviárias, renegociou as restantes trazendo condições danosas para o Estado, chegando ao ridículo de haver casos onde antes o Estado tinha lucro e passou a ter prejuízo.
- Além disso, se o país já estava tão endividado, não se deve congratular por só ter lançado 8 PPP's rodoviárias, pois se não havia condições, não avançava com nenhuma e não comprometia as gerações futuras com encargos demasiado elevados.


Finalizando, confesso que achei piada ao tom doce e terno das palavras de José Sócrates dizendo que ninguém tem que ter medo do seu regresso e dos seus comentários, apenas os que têm medo da Democracia.