sábado, 25 de maio de 2013

Um bife - Jack London






Mais uma vez a genialidade de Jack London é evidente no terceiro conto que pude ler do autor, depois de a fogueira e  burlado, Um bife é um conto sublime, no qual London ousa ser pioneiro na abordagem do tema do pugilismo na Literatura. Além de que é dos melhores textos que já li no que diz respeito à escolha do título, como oportunamente poderão ver.

Um bife é mais do que um conto sobre o mundo do boxe, é a descrição da luta cruel entre a velhice; sábia e cansada e a juventude; insaciável e irreverente. 

Surge-nos Tom King, um veterano lutador de boxe no fim da carreira, que numa noite de combate, está em casa, a jantar alguns pedaços de pão, mergulhados num molho engrossado a farinha, que a mulher tinha conseguido cozinhar para lhe mitigar a fome. Os seus dois filhos foram deitados mais cedo, para que o sono lhes fizesse esquecer a sensação de ardor que lhes assaltaria o estômago. Apetecia-lhe um bife, algo que a sua mulher não tinha conseguido arranjar para o jantar. No final da carreira do marido, já não lhe fiavam nem um bife, todos sentiam que no próximo combate, Tom King perderia e não traria dinheiro nenhum no bolso que lhe permitisse pagar as dívidas.

King embora fosse tranquilo fora dos combates, tinha a aparência rude e sedutora de um homem do ringue:

Era um homem entroncado, de aspecto corpulento, e de aparência particularmente atraente, embora não em excesso. (...) Tinha a cara típica do pugilista profissional, de alguém que passara muitos anos em cima dos ringues e que por isso adquirira e acentuara todos os sinais característicos do animal disposto à luta. (...) Embora tudo nele fosse de uma animalidade pura, os olhos eram a característica que mais acentuava essa aparência. Sonolentos, leoninos, faziam lembrar os olhos de uma fera."

Era uma fera marcada pelos sucessivos anos de luta, com o nariz moldado pelas duas vezes em que fora partido e pelos inúmeros socos recebidos, os nós dos dedos deformados e as veias dos braços salientes, devido ao sangue fervilhante que as tinha percorrido à máxima pressão.

Nessa noite,  Tom King iria defrontar Sandel, um Neozelandês já com alguma fama mas que veria neste combate, a hipótese de a aumentar, caso vencesse o velho King.

Saiu de casa despedindo-se da mulher, que lhe dissera "Tens de ganhar!". Tinha sido um ano de seca na Austrália e tornara-se difícil encontrar algum trabalho que lhe ajudasse a pagar as contas. E tendo em conta que tinha a mulher e dois filhos para sustentar, dirigiu-se ao combate com a sentença de que caso ganhasse o combate, iria receber a quantia de 30 libras, o que lhe permitiria pagar as dívidas e guardar o que sobrasse ou caso perdesse, não ganharia um único cêntimo.

Enquanto fazia a caminhada de três quilómetros até ao local do combate, King pensava nos seus tempos de glória, na sua juventude, de como o dinheiro fácil e a fama o moveram, lamentou-se de não ter aprendido outro ofício e lembrou-se até do velho Stowsher Bill, que tinha derrotado num combate e que chorara como uma criança, após a luta, no vestiário.

Dali até ao Gayety eram uns bons três quilómetros e, enquanto caminhava, lembrou-se de como nos bons tempos - certa vez fora campeão de pesos pesados de Nova Gales do Sul - ia para os combates de táxi, geralmente pago por algum aficionado pelo prazer de o acompanhar. Tommy Burns e aquele preto ianque, Jack Johnson... iam de automóvel. E ele a pé! E, como era bem sabido, caminhar três quilómetros não era propriamente a melhor maneira de se preparar para um combate. Estava velho e o mundo não queria saber de velhos. (...) Quem lhe dera ter aprendido um ofício! (...) Tudo tinha sido tão fácil! Dinheiro a rodos... lutas simples e gloriosas... períodos de descanso e boa vida entre os combates... um séquito de adoradores ansiosos, palmadas nas costas, apertos de mão, os aficionados desejosos de lhe pagar uma bebida em troca do privilégio de cinco minutos de conversa... e a fama, o público delirante, os finais apoteóticos, o árbitro a gritar "Ganhou King!" e, no dia seguinte, o seu nome nas colunas desportivas. (...) Ele era a Juventude, pujante; e eles eram a Velhice, em declínio. (...) Lembrou-se do dia em que vencera o velho Stowsher Bill (...) e de como, já no vestiário, Bill tinha chorado como uma criança. Talvez tivesse também rendas atrasadas para pagar. Talvez tivesse em casa mulher e dois filhos. E talvez Bill, nesse dia do combate, também tivesse sentido vontade de comer um bife.


Chegou ao clube e encontrou Sandel, o seu jovem adversário. Já no ringue, não pôde deixar de fitar a aparência do rapaz: "O seu rosto, forte e atractivo, tinha a coroá-lo uma farta cabeleira loura e encaracolada, enquanto o pescoço grosso e musculado fazia adivinhar um corpo magnífico.".

Tem início o combate e Sandel revela-se rápido e astuto, disparando socos rápidos e certeiros em Tom King, arrancando gritos à plateia. Mas King, não se deixa impressionar, era sábio e conhecia a estratégia do rapaz.
           
Percebia que aqueles socos eram demasiado rápidos e certeiros para serem perigosos. Era evidente que Sandel tencionava acabar quanto antes. Era de esperar, era próprio de um jovem esbanjar o seu esplendor e excelência em ataques selvagens e investidas furiosas, esmagando o oponente com o seu desejo ilimitado de glória e poder.


Assim continuou a luta, com o veterano a aguentar, pacientemente, os golpes do jovem Sandel, sabendo que com eles, a energia dele se dissipava.


             Conhecia o seu ofício, e conhecia a Juventude, agora que ela o abandonara. Não havia nada a fazer enquanto o outro não perdesse algum ímpeto - foi o seu pensamento, e sorriu para si próprio (...) Sandel tinha de gastar a efervescência da Juventude para a discreta Idade ousar retaliar.



Com King a limitar-se a aparar golpes e socos, muitos lhe perguntavam porque não lutava, se tinha medo de Sandel. Enquanto que outros, diziam que tinha os músculos presos, que já não se conseguia mover mais depressa. O que todos eles desconheciam era que todo este jogo, toda esta estratégia, eram a sabedoria refinada e amadurecida de Tom King, que geria ao milímetro a economia do jogo, consciente do seu estado, das energias que não podia gastar desnecessariamente e de como podia induzir o seu adversário a desperdiçar forças.

Sandel percorreu integralmente três quartos da distância, ansioso por recomeçar; mas King contentou-se em percorrer a distância mais curta. Era mais adequado à sua política de economia. Não estava bem treinado, não comera o suficiente, e cada passo contava. Além disso, já caminhara três quilómetros para chegar ao clube. (...)
Sandel esforçava-se por impor um ritmo rápido, mas King, mais conhecedor do ofício, recusava-se a fazer-lhe a vontade. O pugilista veterano sorriu com patética nostalgia e continuou a poupar energia com um zelo que só a Velhice é capaz. Sandel era a Juventude, e esbanjava a sua energia com o abandono liberal da Juventude. A King pertencia o domínio do ringue, a sabedoria acumulada ao longo de dolorosos combates. (...) No início de cada assalto, King demorava-se no seu canto, forçando o oponente a avançar e a percorrer uma distância maior. No fim de cada assalto, orientava o combate de maneira a deslocá-lo para mais perto do seu canto, de forma a poder sentar-se logo.

E de repente, sem que se esperasse Tom King foi aproveitando todas as vantagens a seu favor e abandonou a sua suposta timidez inicial, enfraquecendo o seu adversário, ao desferir-lhe alguns golpes duros, que entusiasmaram e surpreenderam o público.

E Tom King, que durante meia hora poupara a sua energia, agora gastava-a prodigamente num grande esforço que sabia ser capaz de fazer. Era a sua única oportunidade... agora ou nunca. As forças abandonavam-no, e só tinha esperança, de antes de as perder por completo, conseguir derrotar de vez o oponente.


Só que cada golpe dado, era um esforço que o enfraquecia e apesar de toda a sua estratégia, Sandel não se esgotara como King esperara. Pelo contrário, King ia ficando cada vez mais debilitado e o esforço que empreendia era imenso.

E enquanto caminhava a bater e a fazer força, calculando friamente o peso dos seus golpes e a qualidade dos danos infligidos, percebeu como era difícil pôr Sandel inconsciente. (...) Sandel oscilava e cambaleava, mas Tom King sentia as pernas a contraírem-se numa cãibra e os nós dos dedos a protestarem. No entanto, encontrou forças suficientes para desferir socos violentos, cada um dos quais percorria de dor as suas mãos torturadas. (...) Os seus murros eram certeiros, mas já sem ímpeto, e cada golpe era o resultado de um enorme esforço de vontade. As pernas pesavam-lhe como chumbo e arrastava-as visivelmente; entretanto a claque de Sandel, animada,  por este sintoma, começava a lançar-lhe gritos de encorajamento.


Com estes gritos de encorajamento, King lançou-se num derradeiro esforço e aplicou dois socos em sucessão a Sandel, derrubando-o. E assim, pensando que o derrotara, foi surpreendido. A Juventude erguera-se e ele, que tudo tinha apostado no seu último golpe, viu-se incapaz de enfrentar com a energia necessária o seu adversário reerguido, acabando por perder o combate.

E no fim, derrotado, sem dinheiro e exausto, antes de seguir para casa, nos seus três quilómetros a pé, lembrou-se da falta que lhe fizera um bife:

Sentia fome. Não uma fome vulgar, daquelas que rói por dentro, mas uma grande fraqueza, uma palpitação na base do estômago que se transmitia a todo o corpo. (...) Ah! Com aquele bife teria vencido! Fizera-lhe falta para o golpe decisivo, e por isso perdera. Tudo por causa de um bife!


No caminho para casa sentou-se num banco e enervou-se ao pensar que a mulher o esperava para saber o resultado do combate  e sem dinheiro, com dores e com uma fome que o nauseava, chorou, lembrando-se do velho Stowsher Bill e compreendendo porque tinha ele chorado: "Coitado do velho Stowsher Bill! Agora percebia por que razão Bill tinha chorado no camarim.".


Falando essencialmente da luta entre a juventude e velhice, ao longo de todo o conto, lembrei-me também de uma curiosa frase de José Saramago, que deixo para reflexão e para finalizar o meu post - "Os jovens não sabem o que podem e os velhos não podem o que sabem".

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Não banalizem o 25 de Abril!





Hoje é dia de liberdade, 39 anos depois da Revolução dos Cravos, é dia de comemorar a liberdade de expressão. No entanto, por mais que eu pudesse falar do 25 de Abril de 74 é o 25 de Abril deste ano e dos anteriores que me incomoda. Incomoda, porque assisto permanentemente a uma banalização vergonhosa deste dia. Sem dúvida, que o 25 de Abril foi um marco incontornável da História Portuguesa, ao qual, devemos estar profundamente gratos. Contudo, devemos estar conscientes daquilo que é passado e das circunstâncias em que se viveu este dia.
Oiço nas  notícias e nas ruas, pessoas mais velhas e jovens a dizerem que precisamos de um novo 25 de Abril. Saberão o que estão a dizer? Creio que não! E não devemos deixar que as dificuldades e o desespero das pessoas lhes tolde o juízo, impossibilitando uma visão clara das coisas.
É certo que vivemos um período muito difícil, há uma enorme degradação económica e das condições sociais, um desemprego galopante, mas não é comparável, de longe, à vida que existia antes de 1974.
Os jovens da minha idade e mesmo os mais velhos que dizem que precisamos de um novo 25 de Abril, parece que se esquecem de que a Revolução aconteceu, após mais de 40 anos de Estado Novo, uma ditadura férrea conduzida por António de Oliveira Salazar, onde ninguém se podia expressar livremente, onde a censura reprimia tudo, músicos, jornalistas, actores, escritores, onde existiam prisões políticas e tortura. Ninguém podia manifestar-se ou dizer o que a sua consciência ditava, de forma segura. Esquecem-se também dos 13 anos de Guerra Colonial, onde os mais jovens agonizavam com medo de serem chamados para um disparate sem fundamento que mutilou, vitimizou e traumatizou centenas de pessoas, que ainda hoje, homens maduros não recuperaram, vivendo afectados por acessos de memórias dilacerantes que os visitam em amargas vigílias nocturnas. Isto para não falar das famílias, dos pais que viram os seus filhos partirem sem regresso. 
E falemos de Estado Social e protecção dos desprotegidos antes de 1974 - não é comparável aos dias de hoje em nada. A pobreza era muito superior, os cuidados de saúde não eram alargados a toda a população, a taxa de analfabetismo era monstruosa, subsídios de apoio aos cidadãos quase não existiam, a taxa de mortalidade infantil era elevadíssima, não existia Sistema Nacional de Saúde, a despesa social era residual como se pode ler nesta notícia do Jornal i ( http://www.ionline.pt/portugal/conta-me-foi-portugal-ja-nao-era-no-25-abril ) onde actualmente, gastamos mil vezes mais em saúde do que em 1975. 
Também os responsáveis políticos e os chamados Capitães de Abril, creio que estão a ajudar à banalização desta data. Quando Mário Soares e estes senhores, dizem não estar presentes na cerimónia anual a realizar na Assembleia da República por censurarem o actual Governo e discordarem dele, querendo a sua queda, estão a ser míopes. Em primeiro lugar, porque a cerimónia tem carácter parlamentar, o governo nem faz uso da palavra, apenas fica sentado a ouvir. Falam o Presidente da República e representantes dos Partidos, assim numa cerimónia onde o Governo não tem protagonismo, gestos como os do Dr. Mário Soares, só lhe aumentam o protagonismo. Em segundo lugar, são míopes porque estão a reduzir esta data a lutas partidárias e a tentar usar uma bandeira do passado para forçar soluções algo duvidosas no presente, contra um governo democrático, goste-se ou não dele.
Prestemos dignidade à História e tenhamos lucidez na análise do Presente. Por maiores dificuldades que estejamos a viver, não creio que possamos dizer que queremos um novo 25 de Abril, com intervenção dos Militares e com a suspensão do regime. Pois pensem, se suspenderem este regime, teremos o quê? 
25 de Abril é liberdade e gratidão e não uma tentativa consecutiva de repetir as conquistas do passado nos dias de hoje.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Margaret Thatcher - O legado


Margaret Thatcher ( 13 de Outubro de 1925 - 08 de Abril de 2013)



Na segunda-feira passada, dia 08 de Abril de 2013, faleceu uma das maiores referências políticas do Mundo Ocidental. Margaret Thatcher revolucionou para sempre o Reino Unido, a Política e o Mundo. Filha de um merceeiro, desde muito nova foi-lhe incutido o espírito de trabalho, a noção de que se tinha de ter iniciativa própria e de que não se podia esperar pela ajuda de outrem para se progredir na vida. Teve uma educação austera, estudou em Oxford onde se licenciou em Química.
Mas Margaret Roberts,  assim se chamava em solteira, sempre se sentiu fascinada pela política, pelos discursos que o seu pai fazia enquanto político local em Grantham e embora, todos lhe dissessem que a política era algo vedado às mulheres, não se convenceu.
Tentou algumas vezes tornar-se deputada no Parlamento Inglês, nomeadamente, em 1950 e 1951, mas não conseguiu reunir votos suficientes. Embora na segunda eleição tenha aumentado e muito o número de votos, tendo sido a segunda candidata mais votada.
Entretanto, casou-se com o empresário Denis Thatcher em 1951, com quem teve dois gémeos, Carol e Mark em 1953. Graças a este casamento, Margaret Thatcher conseguiu obter sustento durante as suas iniciativas políticas e pôde também mais tarde licenciar-se em Direito. Mas que não se pense que foi um casamento por interesse, ao longo dos anos muitos foram os momentos em que o casal testemunhou o seu amor e a sua forte ligação. (Figura 1)

Figura 1

Margaret subiu a pulso e tornou-se deputada no Parlamento Inglês, tendo lutado contra a hostilidade dos cavalheiros que a menosprezavam e subestimavam as suas qualidades intelectuais e políticas.
Mesmo dentro do seu partido, do início ao fim, nunca reuniu consenso e houve sempre quem não a aceitasse e a desvalorizasse. Em 1970, Edward Heath líder do Partido Conservador vence as eleições e forma governo, convidando-a para Ministra da Educação. No entanto, Edward Heath nunca gostou de Margaret Thatcher e desde logo a avisou para ser discreta no exercício das suas funções, o que não se verificou. Thatcher ficou conhecida como sendo uma guerreira na luta pelas suas ideias e opções e mesmo como Ministra da Educação sempre batalhou nesse sentido, o que não seria muito bem entendido pelo Primeiro-Ministro Edward Heath que durante o seu mandato enfrentou inúmeras greves e paralisações sectoriais, como foi o caso da greve dos mineiros. No entanto, enquanto todo o governo pensava que a melhor forma de lidar com estas manifestações seria aceder às exigências sindicais, Margaret Thatcher defendia que se devia fazer o oposto, enfrentando os sindicatos e assumindo uma postura firme na condução da política do governo. Não foi ouvida e entre várias dificuldades que o governo viveu, como os embargos petrolíferos em 1973, Edward Heath perde as eleições em 1974, passando a líder da oposição.
E como líder da oposição, Edward Heath era cada vez mais contestado e não era visto como o melhor líder do Partido Conservador, num momento de enorme crise no país.
Assim, Margaret Thatcher avança em 1975 para liderança do partido e vence as eleições, na primeira volta derrotando Edward Heath e na segunda volta, derrotando outro candidato e favorito de Heath - William Whitelaw. Torna-se então, líder do Partido Conservador a 11 de Fevereiro de 1975, tornando-se a primeira mulher a liderar um grande partido na Europa. (Figura 2)

Figura 2

Durante o tempo na oposição, foi uma líder feroz, assumindo posições neoliberais, defendendo a luta contra os sindicatos, a redução do peso do Estado na Economia, etc. Tudo isto, fez com quem muitas vezes não fosse aceite e tivesse níveis de popularidade muito baixos. Mesmo assim,  a 4 de Maio de 1979, Margaret Thatcher vence eleições com uma larga maioria e torna-se Primeira-Ministra, sendo pioneira mais uma vez como mulher neste cargo, em todo o mundo ocidental. (Figura 3)

Figura 3

Thatcher encontra um país em sérias dificuldades, considerado o "homem doente" da Europa. Altos níveis de desemprego, uma economia agonizada, a libra em queda, a inflação galopante, uma indústria ineficiente e uma enorme contestação social. Assim, contra tudo e todos, Margaret Thatcher  recusou-se ao simples papel de gerir o declínio do país e em vez disso enveredou por um duro caminho de austeridade com vista à recuperação da grandeza de outrora do Reino Unido, reduzindo o peso do Estado na Economia,  fechando todas as unidades industriais ineficientes, reduzindo a inflação e os benefícios sociais, etc. Muitos a criticaram, alguns ministros do seu governo tentaram demovê-la, mas para ela "apesar do remédio ser amargo, o doente precisa dele" e assim prosseguiu a sua política, conseguindo recuperar a Economia do seu país.
Também ficou conhecida por ter declarado guerra à Argentina pela ocupação das Ilhas Malvinas em 1982. Mesmo sendo os EUA aliados do Reino Unido, tentaram demovê-la dizendo que era escusado lançar uma guerra por um território tão longínquo e insignificante. Aí Thatcher relembrou aos EUA que o Hawai também era um território idêntico e que os EUA responderam contra os ataques japoneses em Pearl Harbor em 1941, deixando-os desarmados. E tendo-se proposto a combater a Argentina e recuperar a soberania sob as Malvinas, Thatcher saiu vencedora.
Margaret Thatcher também foi apelidada pelos russos de "Dama de Ferro" pela sua persistência e obstinação, o que mais tarde viria a revelar-se decisivo para o fim da Guerra Fria.
            Thatcher sairia do cargo de Primeira-Ministra a 22 de Novembro de 1990 pela mão do seu próprio partido. Ao longo dos anos e apesar de muitos sucessos, a sua obstinação e firmeza, as críticas de insensibilidade social e de prepotência fizeram com que o Partido Conservador quisesse mudar de líder com o objectivo de não perder as eleições seguintes. Deste modo, o partido convocou eleições internas às quais Margaret Thatcher venceu na primeira volta com uma ligeira maioria, sendo obrigada a ir a uma segunda volta. Consciente das suas condições e da previsível derrota na segunda volta, Margaret Thatcher renuncia ao cargo de Primeira-Ministra, saindo de Downing Street lavada em lágrimas e não escondendo a mágoa e a revolta de ter sido afastada não pelo povo, em eleições, mas sim pelos interesses do seu partido. No fundo, houve conservadores que nunca aceitaram a filha do merceeiro... (Figura 4)

Figura 4



            Saltando agora os aspectos biográficos, devo dizer que tenho uma profunda admiração por esta grande senhora e política. Quer se goste ou não dela, temos de reconhecer que Margaret Thatcher mudou o Mundo e foi uma visionária. Juntamente com Ronald Reagan (Figura 5) fundou o modelo económico instaurado no Ocidente, até aos dias de hoje, baseado na Economia de Livre Mercado, uma economia onde os mercados se auto-regulam. E apesar deste aspecto poder estar na base das crises financeiras que se vivem actualmente, permitiu durante muitos anos, prosperidade económica. Admito que se possa estar a fechar o ciclo, pois tudo tem um tempo, seja em política ou economia. 
           

Figura 5



"O remédio é amargo mas o paciente precisa dele"
Também neste momento, a crise que se vive em Portugal, as decisões políticas que são necessária, fazem lembrar a Inglaterra que esperava Margaret Thatcher em 1979. Seria bom que tivéssemos alguém na condução dos destinos do país com a determinação dela, na reforma do Estado Social e na redução do Estado na Economia, só assim o Estado consumirá menos recursos financeiros, nomeadamente crédito destinado às empresas, permitindo um maior acesso às empresas privadas, muitas delas PME's, que representam mais de 90% do tecido empresarial português. Só assim se poderá gerar emprego, além de ser necessário cortar na despesa do Estado. Este cortes, actualmente, muito contestados são ABSOLUTAMENTE necessários para que se possa reduzir o nível de fiscalidade aplicado aos contribuintes portugueses, ou seja, baixar os impostos e só assim, o Estado terá menos necessidades de financiamento. Veja-se o exemplo da Inglaterra - só com esta receita conseguiu recuperar economicamente.
           

Por último, creio que Margaret Thatcher criticou muitas vezes a União Europeia porque sabia que o caminho traçado não era o melhor. Thatcher conseguiu ter uma visão muito alongada do que iria acontecer e a crise europeia e das suas instituições que se vive hoje, foi muitas vezes anunciada por ela. Penso até, que faz falta na Europa alguém como Margaret Thatcher, firme e determinada, sem medo  de ser incómoda, alguém inteligente e com visão política, com noção do rumo que toma e como uma posição clara, bem argumentada e atempada, não uma líder como Angela Merkel, sem visão, sem rumo, demasiado preocupada com a imagem, sem carisma político e sem noção das diferenças que separam cada país europeu e que tornam cada país único. É a grande diferença de Angela Merkel e Margaret Thatcher, enquanto que Merkel quer copiar a realidade alemã para os países em dificuldades, Thatcher era uma defensora de uma austeridade inteligente e pormenorizada a par do crescimento económico e uma profunda conhecedora das diferenças entre países. Aliás dentro da sua ideologia política Thatcher dizia que o slogan "somos todos iguais" era demasiado redutor, pois para ela somos todos diferentes e é nessa diferença que reside o sucesso e a capacidade de nos interligarmos todos na busca do sucesso. (Figura 6)

Figura 6

Para reflectirmos acerca da visão dela sobre a Europa, vou deixar um excerto da sua obra  A Arte de Bem Governar editada em 2002 (Figura 7), onde poderemos ver o quanto a sua visão é actual:

"A Europa é, realmente, um Estado ou um império de pernas para o ar. Falta-lhe tanto da substância que está na base da solidez das fundações de um Estado ou de uma potência imperial, que só consegue subsistir através da satisfação de interesses instalados, cada vez mais poderosos. Basta deambular um pouco através da prosa europeia que enforma as directivas, as circulares, os relatórios, os comunicados e os debates "parlamentares", para se perceber que, na verdade, Europa é sinónimo de burocracia. É um governo da burocracia para a burocracia, a que se poderia acrescentar "pela" burocracia, "com" burocracia, etc. (...) Não: o que faz da Europa o supra-sumo da burocracia é o facto de que, em última análise, nada mais tem que a sustente.
As estruturas, os planos e os programas da União Europeia encontram em si mesmos a razão da sua própria existência. A Europa é uma variante da asserção cartesiana "Penso, logo existo", modificada para "Eu existo, logo eu faço" (...) "


Figura 7

Muito fica por dizer sobre Margaret Thatcher, no entanto, não estando impedido de voltar a escrever sobre ela, deixo aqui o meu contributo para recordar o percurso desta GRANDE senhora.

sábado, 6 de abril de 2013

Comentário aos Contos "a fogueira" e "Burlado" de Jack London





A fogueira e Burlado são dois contos que Jack London usou para personificar duas histórias sobre valores. São duas metáforas que se mantêm actuais e que nos levam a reflectir.
            No Burlado, temos Subienkow, um ladrão de peles que prestes a morrer, agoniado perante a evidência de uma morte prolongada e dolorosa, começa a relembrar a sua vida e revisita o passado, conseguindo arranjar uma ideia que lhe permite fintar o chefe da tribo, que pretendia executá-lo de forma impiedosa, morrendo assim com toda a grandiosidade e sem sofrimento, tal como desejara.
            Burlado é um conto que nos fala da perspicácia, da capacidade de não desistirmos perante a mais evidente dificuldade. Subienkow personifica a audácia, o indivíduo esquemático que consegue escapar a um destino que lhe tinha sido imposto e que elabora um plano corajoso, inteligente e mordaz, que faz tremer e pôr em causa a sabedoria e os esquemas da tribo que o ia condenar a um doloroso fim. Apostando na ambição de que a tribo iria demonstrar, ao prometer-lhe um remédio milagroso que ao esfregá-lo na pele, ela ficaria dura como pedra, como ferro, de forma a que nenhuma arma, por mais afiada que fosse a poderia cortar, Subienkow conseguiu despistar o chefe da tribo. Exigiu-lhe cem peles de castor, cem libras de peixe seco, dois trenós e foi ainda mais longe, ao exigir que Makamuk, chefe da tribo, lhe desse a própria filha para o acompanhar na expedição em busca dos ingredientes para este maravilhoso remédio.
            Tudo isto, para que fosse feita a grande burla, a burla que ficou a nu quando após uma machadada que decepou Subienkow, Makamuk viu que tinha sido burlado, que o remédio milagroso não existia e que tinha sido humilhado perante toda a tribo.
            Subienkow conseguiu o que expressara no início do conto: “Morrer como um bravo e de uma vez, com um sorriso e uma chalaça...”.
            A fogueira fala-nos de insensatez e ignorância, de arrogância e falta de perspicácia. Neste conto, temos a figura de um homem, um indivíduo que ignora os perigos de uma caminhada no gelo, com cinquenta graus negativos. Apesar dos conselhos que ouvira, para o homem, todo aquele frio não significava prudência e vigilância, em vez disso, significava que apenas tinha de se agasalhar melhor. Subestimou, tudo e todos, aqueles que o aconselharam a ter cuidado: “Esses veteranos eram um tanto efeminados, pelo menos alguns deles, pensou.  A única coisa que era preciso era não perder a cabeça, e tudo correria bem. Quem fosse verdadeiramente homem podia viajar só.”.
            Estava demasiado cheio de si próprio e avançou no seu trilho, mesmo temendo armadilhas como os regatos de água, que não congelavam e nos quais podia cair e molhar-se, podendo revelar-se como algo fatal.
            Acompanhava-o um husky nativo, um cão-lobo, que sabia que não era boa altura para viajar, “o seu instinto era mais certeiro do que o juízo do homem.”. Além disso não existia uma verdadeira cumplicidade entre o cão e o homem, mas sim uma relação baseada no medo e na repressão, onde o cão era o escravo e só conhecia os berros e as chicotadas do homem. Uma relação que caso fosse o inverso, poderia ter-se revelado útil ao homem quando as dificuldades se intensificaram. E foram muitas, muitas dificuldades que culminaram, inevitavelmente, na morte do homem, gelado e abandonado no meio da sua ignorância e teimosia. Curiosamente, Jack London mostra-nos a imagem final de um cão que fica junto ao homem, que no desespero, o tenta matar e que ainda assim, ali fica, até sentir o cheiro da sua morte, o fim do seu repressor. Uma lição que nos mostra que, na maioria, aqueles que são continuamente oprimidos e mal tratados conseguem ser muito superiores a todos os seus opressores. Como dizia Gandhi: “O que mais me impressiona nos fracos, é que eles precisam de humilhar os outros, para se sentirem fortes...”.